terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Quais lentes eu devo ter?

Fui surpreendido hoje com essa pergunta por uma pessoa que começou a fotografar a pouco tempo, essa é uma dúvida que todo fotógrafo iniciante tem, talvez eu nem seja a melhor pessoa para responder esse tipo de pergunta, mas vamos lá, vamos ver se posso ajudar.
Geralmente quando começamos a fotografar começamos com uma câmera DSLR que traz uma "lente do kit"que geralmente é composto por uma 18-55 mm, nas câmeras Nikon por exemplo isso é mais comum. Com essa lente é possível fotografar quase tudo, é possível aprender a fotografar, dominar a técnica e algumas pessoas inclusive fazem trabalhos com ela.
Mas muitas vezes com o tempo surge a vontade de ter outras lentes, muitas vezes por necessidade mesmo, porque a lente do kit não é adequada para determinado trabalho, aí que mora o perigo da compra compulsiva. É certo que o mundo da fotografia e dos seus mais diversos equipamentos encanta bastante, mas não é porque simplesmente algumas pessoas se encantam com o vasto mundo da fotografia e ficam ávidas por novas lentes que vai sair por aí adquirindo novas lentes só para ter na coleção.
Se você quer comprar outras lentes, mas não sabe direito qual você quer, espere. Não compre. Esse é o maior sintoma de quem compra por ansiedade somente, pois no dia que você precisar de fato de outra lente, você vai saber exatamente qual você precisa comprar. E muitas vezes você só vai saber qual outra lente precisa com o tempo, conforme você for escolhendo por um campo ou outro da fotografia.
Com o tempo e com o convívio com outros fotógrafos, você vai descobrindo qual o tipo de equipamento é o ideal pra você. Se você gosta de fotografias macro, você não vai de cara comprar uma 50 mm só porque disseram maravilhas dela (e realmente ela é maravilhosa mesmo), se você se interessa por esportes, você precisa necessariamente de uma teleobjetiva e não de uma 24-70 mm e assim por diante, não que isso seja regra, você pode ter todas elas que citei aqui, mas dê prioridades ao trabalho que vai fazer.

comprar uma lente e depois descobrir que ela não era tão importante assim pra você acarreta grandes prejuízos, mesmo que você consiga revendê-la, porque, obviamente, você vai perder dinheiro na revenda, mesmo que ela esteja pouquíssimo usada. Tudo na fotografia é muito caro, Desde as lentes até uma simples bolsinha para carregar a sua máquina, tudo tem preço bem salgado. Então antes de sair por aí fazendo grandes gastos por empolgação, tenha certeza absoluta de quais lentes você precisa ter de verdade. E o principal: lembre-se que o que um outro fotógrafo tem não necessariamente é o que você precisa ter também. Afinal cada um tem lentes de acordo com o seu objetivo fotográfico. Descubra o seu objetivo primeiro, com calma, e somente depois invista em novas lentes. Até lá treine bastante com a sua lente do kit!
 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Sobre o uso irresponsável do termo “invasão de haitianos” pela imprensa

A carta que se segue foi escrita e enviada por Helion Póvoa Neto, coordenador do grupo NIEM (Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios), ao jornal O Globo que, em diversas oportunidades, utilizou a expressão “invasão” para se referir aos migrantes haitianos chegados ao nosso país desde 2011.
 
Sua não-publicação até agora, bem como a recusa em publicar outras cartas sobre o mesmo tema em ocasiões anteriores, ao mesmo tempo que prioriza todo tipo de manifestação hostil a estes migrantes, leva a que nos pronunciemos publicamente através de outros meios de divulgação.
 
Como grupo de pesquisadores, professores, estudantes e profissionais que têm uma atuação ligada à defesa e promoção dos direitos dos migrantes e refugiados, expressamos nosso protesto contra as restrições do direito a migrar, defendemos a regularização e o atendimento às demandas dos migrantes que vêm sendo recebidos na fronteira, e recusamos a terminologia securitária e criminalizante adotada por certos veículos de imprensa.
 
O NIEM é um núcleo de pesquisas e debates sobre as migrações no Brasil e no mundo, existente desde 2000 e sediado no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
 
Segue a carta:
 
 
 
Rio de Janeiro, 18 de janeiro de 2014
 
“Invasão” de haitianos?
 
Em sua edição de sexta feira, 17/01, O Globo publicou matéria, assinada por Evandro Éboli, com o título “Tião Viana, do PT, critica governo federal após invasão de haitianos”. O jornal reitera, assim, o uso da expressão “invasão”, já empregada há cerca de dois anos (10/01/2012) com referência ao mesmo grupo de migrantes. E também utilizada por setores da imprensa européia e norte-americana referindo-se à chegada de fluxos, numericamente muito mais significativos, de imigrantes e refugiados africanos, asiáticos e latino-americanos.
 
Ninguém ignora que o Brasil vem sendo destino de um expressivo movimento migratório de haitianos, quantitativamente inferior, aliás, ao de outras nacionalidades, inclusive de origem européia, que mesmo quando em situação irregular, parecem não causar o mesmo alarme. O caso dos haitianos, e de outros migrantes de países do Sul, representa sem dúvida um problema social e humanitário, a ser enfrentado com políticas adequadas de direitos humanos, de inserção no mercado de trabalho, de reforma na atual legislação quanto aos estrangeiros e de uma política imigratória aberta ao futuro.
 
Lidar seriamente com a questão significa estar à altura da posição ocupada pelo Brasil no plano internacional, nem por isso imitando de forma subserviente o vocabulário xenófobo e securitário adotado em muitas nações do Norte, onde forças políticas se aproveitam do pânico criado com a situação dos migrantes para apoiar medidas socialmente retrógradas.
 
No caso da matéria em questão, o conteúdo sequer indica que a palavra “invasão” foi utilizada pelo governador mencionado. Parece que o uso, no título, de palavra mais adequada a intervenções militares do que a famílias e trabalhadores migrantes, expressou antes uma opção editorial do jornal que um respaldo em declarações de autoridades. Chamar migrantes de “invasores” denota hostilidade, favorece aqueles que apostam na criminalização e no atraso social. Uma terminologia, portanto, que um veículo de comunicação responsável faria bem em evitar.
 
Atenciosamente,
 
Helion Póvoa Neto - Professor da UFRJ, coordenador do NIEM 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Já imaginaram se não existissem as fotografias e os fotógrafos?

Gleilson Miranda e o saudoso Ramiro Marcelo
Sabe aquelas fotos do seu primeiro aniversário? Então, foram feitas por um fotógrafo. Existem os fotógrafos profissionais, e também aqueles que tiram fotos apenas por hobbie, pelo gosto em fotografar. As fotografias guardam para sempre os momentos, emoções e sentimentos expressados algum dia da sua vida, a fotografia, antes de tudo é um testemunho. Quando se aponta a câmara para algum objeto ou sujeito, constrói-se um significado, faz-se uma escolha, seleciona-se um tema e conta-se uma história. Cabe a nós, espectadores, o imenso desafio de lê-las pois elas estão por toda parte, revistas, jornais, cartazes, livros, outdoors, videogames e muitas vezes até canais de televisão fazem uso da fotografia, isso sem falar nos momentos importantes que não passamos sem tirar fotos como nas festas e quando estamos em férias! 
É preciso muito estudo e conhecimento para se tornar grande nesta área. A luz, por exemplo, é um elemento fundamental que precisa ser tratado com maestria para se obter uma boa fotografia.

Não fazemos uma foto apenas com uma câmera, ao ato de fotografar, trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, as músicas que ouvimos, as pessoas que amamos. Portanto hoje, dia 8 de janeiro de 2014, dia em que comemora-se mais um dia do fotógrafo, queria deixar aqui registrado o meu carinho e reconhecimento aos amigos, não só pessoais, mas de profissão que fazem dessa arte o seu ganha pão diário e nos brindam com belas imagens todos os dias, porque fazem sim aquilo que amam. São eles: Diego Gurgel, Val Fernandes, Gleilson Miranda, Sérgio Vale, Arisson Jardim, Odair Leal, Marcos Vicentti, Regiclay Saady, Ângela Peres, Rose Peres, Dhárcules Pinheiro e através desses grandes nomes quero parabenizar todos os outros fotógrafos, anônimos ou não que se por um acaso eu esqueci o nome de alguém, me perdoem. Parabéns Fotógrafos!

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

STF quer jornalistas diplomados; onde estão os cozinheiros?

Ironia. O mesmo Supremo Tribunal Federal (STF) que derrubou o diploma para o exercício da profissão de jornalista agora abre concurso para jornalistas diplomados!
Após mais de quatro anos da estúpida decisão, capitaneada pelo ministro-relator Gilmar Mendes, que chegou a comparar o jornalista a um cozinheiro, o douto colegiado de ministros abre um concurso que será apenas para profissionais diplomados.
Li o edital com cuidado. Atribuições como cozinhar o velho e bom arroz e feijão ou saber preparar um tradicional Coq au Vin francês, para oferecer aos coleguinhas do Itamaraty, não fazem parte das habilidades exigidas.
O edital é claro:
“CARGO 3: ANALISTA JUDICIÁRIO – ÁREA: APOIO ESPECIALIZADO – ESPECIALIDADE: COMUNICAÇÃO SOCIAL
REQUISITOS: diploma, devidamente registrado, de curso de nível superior de graduação em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, fornecido por instituição de ensino superior reconhecida pelo MEC, e registro na Delegacia Regional do Trabalho.
DESCRIÇÃO SUMÁRIA DE ATIVIDADES: realizar atividades de nível superior, de natureza técnica, relacionadas ao planejamento, organização, coordenação, supervisão, assessoramento, estudo, pesquisa e execução de tarefas que envolvam todas as etapas de uma cobertura jornalística integrada: produção, redação, reportagem e edição de conteúdos para mídias eletrônicas como rádio, TV, internet e imprensa escrita.”
Se você se interessou, não adianta mais correr, isso só foi amplamente divulgado agora, pois o período de inscrições para o concurso organizado pela Cespe (que na minha opinião, também é uma empresa vagabunda) foram até o dia 4 de novembro.
O salário é bom, pouco mais de 7,5 mil reais, mas são apenas três vagas sabendo-se que há vacância de mais de setenta, considerando-se todas as mídias que trabalham no STF e, diga-se de passagem, realizam um ótimo trabalho por sinal. A carga horária também não é a nossa, o velho e utópico sonho de cinco horas por dia ou sete, no máximo.
Acho que isso só fortalece nossa luta em prol da exigência do diploma para o exercício do Jornalismo tendo em vista que, nem quem derrubou o diploma e promoveu uma censura indireta em nosso trabalho, usa do mesmo mal que propagou, atendendo a interesses pra lá de escusos.
Dotes culinários? Deixe-os para os finais de semana. Isso se não houver plantão.
Extraído do site da fenaj cujo título original é: "“STF faz concursos para jornalistas diplomados. Cozinheiros não servem!”; alguns comentários foram feitos tomando por base o texto de Sylvio Micelli, que é jornalista profissional diplomado e servidor público concursado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ao Mestre com Carinho

Penso que esta é a oportunidade ideal para agradecer por tudo que me foi ensinado pelos meus mestres em todos esses anos da minha vida, tive os melhores que uma criança, adolescente e adulto pode ter para uma formação, não só acadêmica mais também de caráter.
Em tua profissão tens a difícil missão de tornar possíveis os sonhos do mundo, que bom que esta tua vocação tem despertado a vocação de muitos. Parece injusto desejar-te um feliz dia dos professores, quando em seu dia-a-dia tantas dificuldades acontecem, a rotina é dura, mas você ainda persiste, teu mundo é alegre, pois você consegue olhar os olhos de todos os outros
E fazê-los felizes também.
Ainda lembro da tia Francisca da alfabetização segurando minha mão e me mostrando com toda paciência e dedicação como que eu escreveria um simples “A”, e se não fosse aquela mulher com semblante leve e de sorriso fácil no rosto, eu não estaria aqui escrevendo essas mal traçadas linhas.
Ao longo da vida foram muitos que passaram seus ensinamentos pra nós, muitas vezes, mal compreendidos por nos darem uma bronca, por nos colocarem pra fora da sala porque a conversa estava demais, hoje eu sei que não era por mal e sim para o meu próprio bem, eles não precisavam aprender aquilo, eu precisava. O que seria do maior de todos os seres se não existisse o professor, onde estariam os médicos, engenheiros, advogados, jornalistas, arquitetos, diplomatas, enfim, se não pudesse contar com a sua atuação?
Antes de concluir, não podia deixar de registrar o nome de alguns que realmente foram marcantes na minha caminhada. A professora Francisca da Alfabetização, que foi a tia que me ensinou a ler e escrever, depois teve a professora Rosimeire na segunda série que era de quem eu escondia que tinha piolho (não espalhem meu segredo), mais lá na frente na quarta série veio a Professora Amélia, carinhosamente chamada de tia Amelinha, a melhor mediadora de conflitos que eu já conheci, muito mais na frente teve o professor de física mais temido de todos os tempos, Francisco, aí vieram o professor Lidermir, a professora Giana, e acreditem, o Davi Friale foi meu professor de Física também, e todos os outros que tive na faculdade. Tenho que deixar registrado também os parabéns mais do que especial para a Tia Bartira, essa não foi minha professora na escola, mas é a professora com quem eu mais convivi até hoje (é minha tia de verdade), já ensinou muita gente a ler, hoje está curtindo a merecida aposentadoria, mas nunca perderá o mérito e nem a importante patente de Mestre. Tem também a Renata, prima que ganhei lá de Porto Velho, que quem tiver a oportunidade de um dia conversar com ela, saberá de fato que assim como todos os outros aqui citados, faz porque ama.
Enfim, O meu carinho e gratidão a vocês, que além de transmitir seus conhecimentos e suas experiências, souberam apoiar-me nas minhas dificuldades.

Parabéns aos nossos mestres que nos convidaram a voar em sua sabedoria, mesmo sabendo que este voar dependeria das asas de cada um de nós.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

PROFISSÃO: VOLTAR VIVO

A estranha vocação que move fotógrafos a extrair arte e beleza de zonas de conflito


Lourival Sant’Anna*, correspondente de guerra do Grupo Estado, escreve sobre a estranha vocação que move fotógrafos a extrair arte e beleza de zonas de conflito. E mergulha na rotina de fotógrafos como André Liohn e Maurício Lima


Foto: André Liohn

Homem caminha em rua de Porto Príncipe, após o terremoto de 2010 que devastou a capital haitiana. Após esse clique de André Liohn, pouca coisa mudou: o país segue sem assistência internacional e há escombros por toda parte
Passava das dez da noite e eu estava cada vez mais inquieto, enquanto escrevia minha matéria no “centro de imprensa” improvisado num salão do hotel El-Fadeel, em Benghazi. Os fotógrafos Paulo Nunes dos Santos e David Sperry tinham ido naquela manhã para o front em Ajdabiya, 160 quilômetros a oeste, e já deveriam ter voltado. De repente, Paulo, um português de 34 anos radicado na Irlanda, surgiu na entrada do salão. Nossos olhares se cruzaram. Olhei para os lados e não vi David. Então entendi sua expressão de desespero. Levantei e fui correndo até ele.
“O David ficou nas dunas”, disse ele. “Na verdade, não sei o que aconteceu com ele. Quando escureceu, o motorista me chamou e disse que ia embora imediatamente. Eu disse que tinha de encontrar o David primeiro. Ele disse que se eu não viesse com ele já, ele voltaria sozinho. Eu não tinha outra saída a não ser voltar.”
Passaram-se duas longas horas. Até que David, um americano de origem coreana, 28 anos, apareceu na entrada do salão. “Voltei num ônibus para rebeldes que não têm carro para ir lutar”, contou ele sorrindo. Eu não sabia se ficava bravo ou feliz. Paulo e David já tinham nos passado um susto poucas noites antes, quando foram atacados por franco-atiradores à caça de jornalistas, ao cruzar do nosso hotel, o único com internet, para o hotel onde dormiam, a 500 metros dali. Os dois se jogaram no chão e viram uma granada cair na calçada perto deles, mas ela falhou.
David mostrou as fotos no monitor de uma das três câmeras cobertas de areia que ele trazia penduradas no pescoço. Os projéteis disparados pelos tanques das forças leais ao regime líbio enchiam todo o quadro de algumas das imagens, como bolas de fogo que brilhavam na escuridão. David usava lentes normais. Para fazer aquelas fotos, ele tinha estado absurdamente perto dos tanques. Lembrei da frase de Robert Capa, o húngaro que praticamente fundou a fotografia de guerra com sua cobertura da Guerra Civil Espanhola: “Se suas fotos não estão boas o suficiente, você não está perto o suficiente”.
Foto: Maurício Lima
Morador observa a destruição da guerra em mais uma imagem de Maurício Lima feita para o New York Times na cidade síria de Sirte ano passado
Estive com Juca Varella no Iraque, Jonne Roriz no Haiti, Armando Favaro no Irã, Evelson de Freitas na África do Sul, Dida Sampaio na Rússia, Wilson Pedrosa em Honduras, porém costumo partir sozinho nas minhas andanças, e isso inclui as guerras. Mas convivo muito com fotógrafos, que muitas vezes também andam desacompanhados nessa experiência essencialmente solitária – o que pode ser mais solitário que o convívio com a morte? – que é a cobertura de guerra.
Fotografo e gravo tantos vídeos que, quando a revista Trip me ligou para falar desta matéria, já ia explicando que não sou fotógrafo de guerra, até entender que eu seria o autor, não um entrevistado. Estou tão absorto no ofício de contar histórias que não vivo mais as diferenças entre escrever, falar, fotografar e filmar. O fotógrafo brasileiro André Liohn, vencedor deste ano da Medalha de Ouro Robert Capa, o mais importante prêmio da fotografia de guerra, também se preocupa mais com a história que com sua identidade de fotógrafo: “Minha fotografia é só uma desculpa para eu estar ali, participando daquilo tudo e de alguma forma opinando sobre aquilo que está acontecendo”, disse André em abril ao programa Roda viva, da TV Cultura. “E, se posso participar de forma mais ampla fotografando e filmando ao mesmo tempo, melhor ainda. Gravo vídeos em situações que vejo que o filme conta melhor a história.”
André, 39 anos, vive com a mulher e dois filhos pequenos em Ariano Irpino, na Itália. Cruzei com ele uma vez no Haiti e duas na Líbia, e estivemos simultaneamente em vários outros países. No momento, está na Síria, para a revista alemã Der Spiegel.
Direto de CabulNão há um perfil uniforme dos fotógrafos de guerra. Maurício Lima, hoje o mais atuante fotógrafo de guerra brasileiro, ao lado de André, tem uma vivência diferente na questão multimídia: “Não consigo pensar em duas coisas ao mesmo tempo. Fotografar já é suficientemente difícil”, escreveu Maurício, que respondeu minhas perguntas por e-mail, de Cabul, onde está cobrindo o conflito do Afeganistão para o jornal The New York Times.
“Ninguém gosta de cobrir conflitos”, diz Maurício, 37 anos, solteiro, que teoricamente mora em São Paulo, mas passou oito dos 12 meses de 2011 viajando a trabalho. “É necessário e fundamental. É uma vertente na fotografia que, se bem executada, pode servir de agente transformador e de denúncia na vida das pessoas porque mexe com a emoção, o sentimento, a sensibilidade do fotografado e do fotógrafo.”
Maurício usa lentes 50 mm (normal) e principalmente 35 mm (grande-angular), que o obrigam a estar muito, mas muito próximo da cena. Ele vê a proximidade como necessária não só do ponto de vista técnico, descrito por Robert Capa, mas da compreensão e do sentimento do que se passa: “Para isso, você precisa estar perto, respirar aquele sentimento que não deixa dúvida sobre a que você veio. Mas isso depende essencialmente da dedicação e da perseverança do fotógrafo, daquilo em que ele acredita. Sou inquieto, curioso, de uma certa forma inconformado com muito do que já testemunhei até agora. As pessoas querem saber com mais profundidade se aquilo ainda existe, de que forma e por que nas suas nuances mais particulares. É uma fotografia ambígua que, ao mesmo tempo que diz que isso aconteceu ou acontece, quer dizer na verdade que isso não deveria acontecer novamente, ou que deveria parar de acontecer imediatamente”.
Sobre os conteúdos emocionais que se acumulam no peito do correspondente de guerra e o encorajam a encarar a morte, Maurício fala em inconformismo e André, em revolta: “A revolta me levou a cobrir guerra. Quero expressar na fotografia o momento de trauma. A vida da pessoa vai ter que mudar. A pessoa vai ter que tomar decisão sobre pra que lado ela vai. A vida como era até então não vai existir mais. A pessoa que vê essa foto, espero que também se relacione com esse momento de trauma e diga ‘não vi isso antes, não senti isso antes’. Não é chocar. É ter consciência de que a vida tem que tomar direção nova. Me identifico com toda pessoa que se insatisfaz com a realidade e quer mudar isso”.
À pergunta sobre se é “viciado em adrenalina”, André responde: “De jeito nenhum. Eu dirijo devagar”. Maurício: “Sou viciado em distintas culturas, etnias, credos, na paixão por contar histórias das vidas das pessoas afetadas direta e indiretamente por conflitos, em usar a fotografia como canal de voz para comunidades e grupos de pessoas esquecidas pelo noticiário nos lugares mais remotos do planeta, por documentar as transformações do mundo moderno com maior profundidade. Isso é o que me move como ser humano e como fotógrafo”.
Num simbolismo do quanto suas imagens são impulsionadas por sentimentos que vêm de dentro deles, ambos os fotógrafos têm problemas de visão.
Como todo correspondente de guerra, André e Maurício tiveram experiências que os marcarão para sempre. De todos os tipos. Durante a batalha de Misrata (Líbia), em abril do ano passado, um morteiro caiu no local onde André cobria o resgate de escudos humanos pouco tempo depois de ele sair de lá, matando os fotógrafos Tim Hetherington e Chris Hondros e ferindo Guy Martin e Michael Christopher Brown. Por falta de eletricidade para refrigeração, não havia meio de manter os corpos ali, e os médicos do hospital de Misrata perguntaram a André o que deviam fazer com eles. André não tinha contato com suas famílias nem empregadores. O jeito que encontrou foi anunciar a situação no seu Facebook, mesmo sabendo que as famílias se chocariam com a notícia. Rapidamente a Getty Images, para a qual ambos os mortos trabalhavam, entrou em contato, e André apagou o texto do Facebook.
Maurício fez um ensaio fotográfico com Ayad Ali Brissam Karim, um menino iraquiano que perdeu a visão do olho direito e ficou somente com 20% da do olho esquerdo. Ayad foi obrigado a deixar a escola porque sofria bullying devido aos ferimentos de queimadura no rosto. Maurício encontrou o menino e seu pai nas ruas de Bagdá, quando pediam ajuda com um prontuário médico em mãos. “Quase dois anos mais tarde, soube através de uma editora da revista Time que esse ensaio havia sido publicado à época no The Washington Post, e que uma família americana se sensibilizou, foi ao Iraque em busca de Ayad e o levou para tratamento de córnea nos EUA”, conta Maurício. “Essa história mexeu profundamente comigo antes mesmo de saber das consequências. Fez pensar que valeu a pena o comprometimento por documentar a guerra do Iraque, que foi a maior vergonha ocorrida nas últimas décadas.”
Ser fotógrafo de guerra é viver confrontado com a própria impotência diante da barbárie e da morte. Mas é também, em um dia de sorte, fazer a diferença em uma vida que seja.

Foto: Arquivo Pessoal
André Liohn, que este ano ganhou o prêmio Robert Cappa de fotografia de guerra. Liohn foi o primeiro sul-americano a ser premiado, e assistiu à morte de dois fotógrafos colegas seus em Misratah

Foto: André Liohn
Rebelde é atingido pelas forças pró-Muammar Gadaffi, na cidade de Misratah

Foto: Maurício Lima
Na Líbia, rebelde comemora após achar rifles e munição em uma área residencial da cidade de Sirte. O brasileiro Maurício Lima fez essa foto quando esteve no país ano passado, trabalhando para o The New York Times

Foto: Maurício Lima
Rebelde sírio que lutava contra as forças do ditador Gaddafi tomba baleado (no braço) logo após outro tiro ter atingido o peito do homem caído no canto direito da imagem. O flagrante de Maurício Lima foi captado ano passado em uma cobertura da cidade de Sirte


*Lourival Sant'Anna é correspondente de guerra do Grupo Estado

sexta-feira, 8 de março de 2013



O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, tem como origem as manifestações das mulheres russas por melhores condições de vida e trabalho e contra a entrada da Rússia czarista na Primeira Guerra Mundial. Essas manifestações marcaram o início da Revolução de 1917. Entretanto a ideia de celebrar um dia da mulher já havia surgido desde os primeiros anos do século XX, nos Estados Unidos e na Europa, no contexto das lutas de mulheres por melhores condições de vida e trabalho, bem como pelo direito de voto. Hoje pra mim, todo esse contexto histórico não faz mais muito sentido, o que realmente interessa nesta data, é a celebração de um dia merecidamente delas. Nada mais justo ter um dia dedicado só pra elas, especialmente escolhido pra homenagear essas guerreiras que tem o poder de conciliar trabalho, emoção, lar, esposos, filhos e são mestras na arte de amar.
Me orgulho de ter na minha vida, ou melhor, de fazer parte da vida de várias dessas guerreiras, guerreiras essa que são mães, filhas, esposas, sogras, noras, netas.
Obrigado Luciana (mãe), Gorette, Inês, Bartira, Glória, Neuza, Flora (tias), Meu amor Kimy (esposa), Orleny (sogra), Brenda (cunhada),Bruna e Vitória (Sobrinhas). Obrigado por fazerem parte da minha vida e obrigado por ter construido meu caráter e terem me ensinado a ser o Homem que hoje eu sou.

Parabéns pelo seu dia, amo muito todas vocês!